O documento é inédito e traça os possíveis cenários de impactos econômicos baseados no relatório do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês). Às vésperas da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, os resultados chamam a atenção.
O ponto de partida foram modelos computacionais que forneceram projeções sobre o comportamento futuro do clima no território nacional, como temperatura, precipitação e fluxo hidrológico. “O valor em si (R$3,6 trilhões) é chocante e mostra que o problema não é nada desprezível”, afirma o coordenador do estudo, Sérgio Margules, doutor em Economia do Meio Ambiente pela Universidade de Londres e economista ambiental do Banco Mundial.
- Sabemos que as populações mais pobres são as mais afetadas dentro desse quadro"
Dos efeitos econômicos da savanização da floresta amazônica ao impacto da redução de oferta hídrica no sistema de geração de energia elétrica, o estudo aponta para um cenário em que as perdas causadas pelas alterações no clima irão puxar novos gastos do governo federal para tentar controlar a situação.
“Outro aspecto importante é a injustiça social que isso pode causar. O Sul e o Sudeste são menos atingidos enquanto o Norte, Nordeste e o Centro-Oeste são mais fortemente atingidos e sabemos que as populações mais pobres são as mais afetadas dentro desse quadro”, explica Margules.

Savanização
Na Amazônia, de acordo com o relatório do IPCC, o aquecimento pode chegar a 8°C em 2100. Estima-se que as mudanças climáticas resultariam em redução de 40% da cobertura florestal – a chamada savanização. Margules aponta uma das soluções que o relatório traz, investimentos no comércio de crédito de carbono.
“Seria relativamente barato reverter
o desmatamento se de alguma forma
fosse compensada com o pagamento
pelo carbono”, diz. “Se a comunidade
global estiver disposta a pagar US$
3 a tonelada de carbono, os
produtores prefeririam receber essa
quantia a expandir a pecuária na
região”, explica o economista.
No entanto, ele ressalta que o
estudo não aponta formas de
implementar a política de compra de
crédito de carbono. “O estudo não
diz como isso seria feito, apenas
fizemos a conta e mostramos que isso
seria mais barato”, diz.
Queimada na floresta amazônica no Pará (Foto: AFP PHOTO/Jefferson Ruddy/MMA )
No Nordeste, as chuvas seguiriam uma
tendência de diminuir entre 2 mm/dia
e 2,5 mm/dia até 2100. Os resultados
seriam perdas agrícolas em todos os
estados da região. O déficit hídrico
reduziria em 25% a capacidade de
criação de gado de corte, levando a
um retrocesso à pecuária de baixo
rendimento.
- Se a comunidade global estiver disposta a pagar US$ 3 a tonelada de carbono, os produtores prefeririam receber essa quantia a expandir a pecuária na região"
O declínio de precipitação afetaria a vazão de rios em bacias da região, importantes para geração de energia, como a do Parnaíba e a do Atlântico Leste, com redução de vazões de até 90% entre 2070 e 2100. De acordo com o relatório, isso causaria a “perda de confiabilidade do sistema de geração de energia.”
“Caso se confirme esse quadro, o Nordeste realmente vai ter uma redução significativa da disponibilidade hídrica e a geração de energia que vem daquela região vai ficar comprometida”, afirma Margules.
Elevação dos mares
O estudo aponta também para os prejuízos causados pelas alterações climáticas nas zonas costeiras e na agricultura. A estimativa dos valores materiais em risco ao longo da costabrasileira é de R$ 136 bilhões a R$ 207,5 bilhões. O investimento em estudos e obras necessárias para prever e conter a elevação dos níveis do mar somariam R$ 3,72 bilhões até 2050.
Na agricultura, com exceção da
cana-de-açúcar, todas as culturas
sofreriam redução das áreas de
produção, em especial a soja (até
34%), milho (15%) e café (18%).
“As estimativas são assustadores, principalmente se considerarmos que 2050 ainda não é um horizonte de mudanças climáticas tão grave quanto 2100”, diz a também coordenadora do estudo, Carolina Burle Schmidt Dubeux, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Neste cenário, os dois pesquisadores
consideram positiva a atitude do
governo brasileiro de levar para
Copenhague um compromisso de reduzir
em até 38,5% as emissões de gáses
causadores do efeito estufa. "É uma
medida positiva que mostra o
comprometimento do Brasil", diz
Carolina.
Além de calcular os prejuízos, o
estudo mostra também os caminhos
para diminuir o impacto das mudanças
climáticas no Brasil.
De investimentos em pesquisas de modificações genéticas para a agricultura, fontes de energia renováveis aos biocombustíveis, a boa notícia é que apostar no desenvolvimento limpo é mais barato para o país. “O aquecimento global não é uma questão ambiental é de desenvolvimento”, diz Margules.