Brechó online é opção para quem quer estar na moda sem gastar muito

Paraenses apostam em bazares para renovar o guarda-roupa e incentivar consumo consciente

Quem nunca entrou em uma loja, se rendeu ao impulso do consumismo e acabou comprando mais do que devia? E o que é pior, se cansou das peças adquiridas ou nunca teve eventos para usá-las? A intenção de compra aliada à materialização de desejos muitas vezes inatos - e incentivados pela publicidade - acabam levando consumidores à aquisições desnecessárias. Adquire-se a tendência, o up-to-date, a novidade sem levar em consideração a real necessidade de cada um. Esta é uma situação comum principalmente na vida das mulheres. Mas como fazer para renovar o guarda roupa de uma forma coerente sem gastar muito? Um dos caminhos é exercitar o desapego, e uma boa dica para colocá-lo em prática são os 'brechós'.

O termo tem origem na história de um mascate chamado Belchior que, no século XIX, no Rio de Janeiro, ficou conhecido por vender roupas e objetos de segunda mão. Os anos se passaram e com a tecnologia os bazares virtuais e os blogs de moda ganham cada vez mais espaço e adeptas em todo o país. E as paraenses não poderiam ficar de fora. Uma delas é a blogueira Narda Negrão. Residindo em São Paulo há alguns anos, ela sempre teve um relacionamento sério com consumo e moda.

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Narda é dona de um blog, o Hi-Lo, no qual publica conteúdo especializado em moda e beleza. Por lá, compras e achadinhos naquelas liquidações que a gente só ia dar aquela olhadinha são pauta recorrente. No entanto, a forma como se relaciona com o consumo vem mudando. 'A coisa era bem pior há 3 anos. Agora casada e morando em um apartamento pequeno sem espaço para ter tanta coisa, me peguei com novas prioridades e consumindo de forma bem mais consciente', conta.

Foi essa mudança a responsável pela sessão desapego que a blogueira promoveu em seu guarda-roupa e resultou no Hi-Lo Bazar, uma página criada por Narda no Facebook para colocar à venda peças novas - algumas ainda com etiqueta - e outras pouco usadas. 'Se você não usa uma peça dentro de um prazo de 6 meses, é porque ela não faz falta. Tinha peças compradas em 2010 que nunca havia usado. Resolvi desapegar e criar o bazar', conta.

As peças selecionadas foram as que a paraense considerou mais interessantes em termos de marca e pouco uso. 'Separei muita coisa para doação, especialmente peças que já tinham sido muito usadas', detalha. Roupas antigas de frio foram doadas para a campanha do agasalho que acontece anualmente na capital paulista. O que restou entrou no bazar.

A seleção inclui bolsas, sapatos, camisetas com estampas com pegada pop e acessórios. As marcas são um mix do estilo da blogueira. Há queridinhos do fast fashion mundial como Zara, H&M e Forever 21 e brasileiras como Marisa e Renner. Para estabelecer os preços a regra foi simples: 'Quanto seria justo pagar em uma camiseta de segunda mão?', indagou a blogueira que contou com a experiência de trabalhar em uma rede varejista de moda para dar valores às peças. Há objetos por R$ 10, por exemplo, e outros a R$ 60.

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Narda avalia que a popularização da ideia dos bazares e, consequente, compartilhamento de peças que outrora seriam só de uma pessoa, como um indicativo de que estamos em processo de melhora enquanto consumidores. Contudo, acredita que 'estamos longe de sermos consumidores mais conscientes'. Seu argumento é baseado no volume de novidades que as lojas de departamento - agora chamadas de fast fashion - trazem ao mercado para atrair compradores ávidos por novidades e tendências frescas. 'A moda de uma forma geral faz isso. Ainda não temos muito claro a necessidade de consumirmos peças mais duráveis e de maior qualidade', analisa.

Antes de sair pelas araras das lojas em busca de peças parecidas com as das personagens da novela das 21h, a blogueira dá alguns conselhos. 'Primeiro de tudo é importante que a pessoa conheça o seu estilo. Não ter essa consciência do seu gosto pessoal contribui, e muito, para fazer escolhas erradas, comprar só porque é tendência', ressalta. Um passo preliminar à compra é avaliar se há algo no armário a ser combinado com a peça-desejo. 'Tento me imaginar em alguma ocasião com aquela peça, realmente 'reflito' se aquela vai ser uma boa aquisição. Se as respostas forem sim, compro', ensina.

Apesar desses truques para frear a tentação do consumo pelo consumo, a ideia do repasse de peças por meio do bazar, Narda - como todas nós - se controla para não cair em tentação diante de uma vitrine com peças em promoção. 'Brinco que sou uma consumista em reabilitação', finaliza.

Outro exemplo de exercício de desapego é o de Tita Padilha, que criou o 'Brechó da Tita'. A iniciativa da designer paraense surgiu do descontentamento com suas atuais roupas e vontade de adquirir novas peças. 'Estava desmotivada com meu guarda roupa. Tinha muitas peças paradas, que comprei por empolgação ou que só havia usado uma vez e não queria mais, no entanto era complicado comprar roupas novas com o armário cheio e sem gastar muito. Foi então que resolvi dar uma geral e selecionar algumas que não queria mais e vender pela internet', conta Tita.

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Neste tipo de comércio todos acabam ganhando. 'Para quem compra, é uma ótima opção para ter uma peça de marcas consagradas com um preço mais acessível e variar no look. E para quem vende também, pois é uma forma de juntar dinheiro e comprar peças novas. Neste sentido, a internet acaba sendo a opção mais prática e barata, já que a divulgação é bem maior e sem custos', explica.

Os brechós também incentivam o uso das peças por mais tempo, contribuindo para um consumo mais consciente, conceito apresentado pelo chamado 'Slow Fashion'. 'Essa tendência vem ganhando cada vez mais espaço em todo o país. Aqui em Belém, o movimento já tem adeptas que buscaram formas de passar em frente roupas e acessórios usados, que além de contribuir para o aumento do ciclo de uso, também é uma ótima opção para quem quer estar sempre na moda sem gastar muito', acrescenta.

Consumo consciente - Consumir com consciência e responsabilidade começa a ser uma tendência observada em Belém. 'É uma mudança de cultura que faz parte do processo de educação ambiental', explica Marcus Wilson, coordenador da ONG No Olhar.

A entidade trabalha no engajamento social visando combate ao desperdício e conservação de práticas ambientais. 'As pessoas tendem a achar que educação ambiental é só cuidar da fauna e flora, mas não é só isso. O consumo consciente, a mudança de postura faz parte do processo', prossegue.

Marcos explica que a ideia de consumo consciente passa longe do radicalismo associado a práticas que questionem o status quo. 'Consumo consciente não é deixar de usar determinada marca ou produto. É saber usar os produtos com responsabilidade, tendo a preocupação de escolher itens que ofereçam a possibilidade de descarte correto. Defendemos um consumir menor e com melhor qualidade', avalia.

 

 
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